
Manifestante segura placa em um evento de campanha da primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi em Tóquio, Japão, em 27 de janeiro de 2026. (Xinhua/Jia Haocheng)
A postura subserviente de Takaichi ao longo das negociações também deixou muitos perplexos, colocando-a em uma posição delicada em Washington e alimentando uma crescente controvérsia no Japão.
Tóquio, 21 mar (Xinhua) -- Criticada internamente como "diplomacia bajuladora", a visita da primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, a Washington chamou a atenção após suas conversas com o presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca, na quinta-feira. Observadores viram Takaichi fazendo concessões repetidas, mas sem conseguir resultados claros em questões-chave.
Nenhuma declaração conjunta foi emitida após a reunião, e comentários de ambos os lados sugeriram a falta de consenso em várias questões econômicas e de segurança importantes, segundo a mídia e analistas japoneses.
A postura subserviente de Takaichi ao longo das conversas também surpreendeu muitos, colocando-a em uma posição delicada em Washington e alimentando a crescente controvérsia no Japão.
BAJULAÇÃO RECEBIDA COM PROVOCAÇÕES
Antes da visita de Takaichi, o pedido de Trump para que o Japão e outros países enviassem navios de guerra para escoltar embarcações pelo Estreito de Ormuz provocou reações negativas no Japão. A mídia e os comentaristas alertaram que essa medida poderia ultrapassar os limites da constituição pacifista do Japão e potencialmente arrastar o país para conflitos no Oriente Médio.
Desde o início das conversas, Takaichi fez questão de agradar o presidente dos EUA diante da imprensa, mas três incidentes constrangedores se sucederam.
Após Trump dar as boas-vindas, Takaichi tentou falar em inglês hesitante, voltando ao japonês somente depois que Trump mencionou que ela tinha "uma ótima intérprete".
Takaichi também se dirigiu a Trump pelo primeiro nome, "Donald", em um gesto interpretado como demonstração de proximidade. Ao mesmo tempo em que reconhecia a grave situação de segurança no Oriente Médio e no mundo todo, e seu profundo impacto na economia global, ela declarou que "somente Donald pode alcançar a paz e a prosperidade no mundo".
As declarações foram rapidamente alvo de críticas no Japão. Muitos internautas japoneses foram diretos ao chamar seus comentários de "vergonhosos", especialmente considerando a ampla condenação internacional de Trump pelos ataques militares dos EUA ao Irã, que, segundo críticos, violaram o direito internacional.

Pessoas participam de protesto contra os ataques dos EUA e de Israel ao Irã em São Francisco, Estados Unidos, em 28 de fevereiro de 2026. (Foto de Ziyu Julian Zhu/Xinhua)
Tomoko Tamura, presidente do Partido Comunista Japonês, da oposição, disse que Takaichi não fez uma única crítica aos ataques dos EUA e de Israel ao Irã e, em vez disso, elogiou Trump, chamando essa diplomacia, de alinhamento cego com os Estados Unidos, de profundamente vergonhosa.
Além disso, quando um repórter japonês perguntou por que os Estados Unidos não notificaram aliados como o Japão com antecedência antes de lançar seu ataque ao Irã, Trump invocou o ataque surpresa japonês a Pearl Harbor em 1941, observando categoricamente que "quem entende melhor de ataques surpresa do que o Japão?". Ao reagir à piada, Takaichi arregalou os olhos em aparente choque e pareceu visivelmente constrangida, mas não deu nenhuma resposta verbal.
A mídia americana interpretou isso como um reflexo do desprezo arrogante de Trump por seus aliados, sugerindo que ele busca deliberadamente humilhar ou expor as vulnerabilidades de seus homólogos para conseguir vantagem nas negociações.
Mireya Solis, diretora do Centro de Estudos de Política Asiática da Instituição Brookings, em Washington, observou que presidentes americanos anteriores geralmente evitavam falar longamente sobre Pearl Harbor na presença de líderes japoneses, tornando os comentários de Trump "incomuns e chocantes".
Os dois lados também pareceram incapazes de resolver suas divergências sobre a questão da escolta no Estreito de Ormuz. Após a reunião, Takaichi declarou à imprensa que explicou a Trump o que o Japão "pode fazer" e "não pode fazer" dentro da estrutura legal, e que manteria comunicação próxima com o lado americano sobre o assunto.
Tetsuo Kotani, professor da Universidade Meikai, comentou que o governo Trump claramente não tem interesse no que o Japão "não pode fazer" e pode expressar seu descontentamento a qualquer momento.
CONCESSÕES ECONÔMICAS
Incapaz de atender plenamente às expectativas de Trump quanto ao envio de navios para escoltar embarcações pelo Estreito de Ormuz, Takaichi mudou o foco para o investimento econômico.
Durante as negociações, ambos os lados confirmaram um segundo lote de projetos candidatos no âmbito de um acordo previamente prometido de 550 bilhões de dólares americanos para investimentos japoneses, com o objetivo de garantir tarifas americanas mais baixas.
Esses projetos incluem planos para o Japão investir em reatores nucleares modulares de pequeno porte de última geração e em usinas de energia a gás natural nos Estados Unidos, totalizando aproximadamente 73 bilhões de dólares.
Takaichi também prometeu cooperar. O Japão estabeleceu acordos com Washington para impulsionar a produção de energia e aumentar as importações japonesas de petróleo bruto dos EUA, visando reabastecer suas reservas. Além disso, ambos os lados concordaram em colaborar no desenvolvimento de minerais críticos, como terras raras.
No entanto, esses compromissos geraram críticas generalizadas no Japão. Os opositores argumentaram que o acordo tarifário é injusto e prejudica os interesses nacionais.
O economista japonês, Takashi Kadokura, questionou por que o Japão continua honrando compromissos de investimento vinculados a tarifas, mesmo após uma decisão da Suprema Corte dos EUA ter invalidado as medidas de "tarifas recíprocas" de Trump. Ele também apontou que a distribuição dos retornos, em que aproximadamente 90% dos investimentos vão para os Estados Unidos, é claramente irracional.
O veterano jornalista japonês, Jun Yamada, alertou que a expansão dos investimentos nos Estados Unidos poderia prejudicar a própria economia japonesa, criticando a abordagem de Takaichi como uma "traição aos interesses nacionais" e um aumento do ônus para os contribuintes.
MAIOR ALINHAMENTO EM SEGURANÇA
Takaichi também indicou apoio a um alinhamento de segurança mais estreito com Washington. Em declarações à imprensa após a reunião, ela disse que ambos os lados concordaram em avançar em uma "ampla cooperação em segurança", incluindo o desenvolvimento e a produção conjunta de mísseis.
A agência japonesa de notícias Kyodo informou que Trump acolheu favoravelmente os planos do Japão de aumentar significativamente as compras de equipamentos militares dos EUA durante um jantar após as conversas.
O Japão tem expandido de forma constante seus gastos e aquisições na área da defesa nos últimos anos. Em janeiro, o Conselho de Auditoria do Japão analisou as aquisições do Ministério da Defesa no âmbito do programa de Vendas Militares Estrangeiras dos EUA, constatando que o total de contratos entre os anos fiscais de 2018 e 2023 atingiu 3,55 biliões de ienes (cerca de 22 bilhões de dólares), o que gerou preocupação pública.
O jornal japonês Tokyo Shimbun questionou se o Japão deveria continuar gastando enormes quantias de dinheiro dos contribuintes em armamento americano, classificando a tendência como uma "farra de compras" excessiva.
Poucas horas antes da cúpula, mais de 10.000 pessoas se reuniram em Tóquio para protestar contra o reforço militar do Japão, alertando que isso poderia desestabilizar a região e colocar o país em um caminho perigoso.
O ex-alto funcionário do Ministério das Relações Exteriores, Hitoshi Tanaka, criticou o gabinete de Takaichi por impulsionar a revisão constitucional, aumentar os gastos com defesa e expandir as exportações de armas, enquanto se "apegava" e "apaziguava" os Estados Unidos em nome da dissuasão.
Ele argumentou que essa abordagem é "totalmente equivocada", enfatizando que o Japão deveria, em vez disso, priorizar a diplomacia e os mecanismos com os países vizinhos para evitar equívocos e conflitos.







