Rio de Janeiro, 30 ago (Xinhua) -- O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira que "não tem pressa" em aplicar a Lei de Reciprocidade contra os Estados Unidos, embora tenha insistido que o processo precisa avançar para impulsionar as negociações sobre tarifas de até 50% que afetam os produtos brasileiros.
Em entrevista à Rádio Itatiaia durante visita a Belo Horizonte, Lula enfatizou que já autorizou a aplicação da nova legislação, sancionada em abril, e que a Câmara de Comércio Exterior (Camex) iniciou os procedimentos necessários, incluindo a notificação a Washington.
"Não tenho pressa em fazer nada com reciprocidade contra os Estados Unidos. Tomei a medida porque o processo precisa avançar", declarou.
A lei autoriza o Brasil a responder a medidas unilaterais de outros países, como as sobretaxas recentemente impostas pelos Estados Unidos.
O presidente lembrou que o Brasil já recorreu à Organização Mundial do Comércio (OMC), mas alertou que os procedimentos internacionais são lentos. "Temos que dizer aos Estados Unidos que também temos medidas a tomar, mas não tenho pressa, porque quero negociar", acrescentou.
Inicialmente, em 2 de abril, Washington impôs uma tarifa de 10% ao Brasil, mantendo um superávit bilateral. No entanto, em 6 de agosto, uma tarifa adicional de 40% entrou em vigor em retaliação às decisões brasileiras que, segundo o presidente dos EUA, Donald Trump, afetaram grandes empresas de tecnologia americanas, bem como em resposta ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por seu suposto envolvimento em uma tentativa de golpe após as eleições de 2022.
Com isso, 35,6% das exportações brasileiras para os Estados Unidos passaram a estar sujeitas a uma tarifa total de 50%.
Lula reiterou a disposição do Brasil de dialogar "24 horas por dia", desde que a Casa Branca esteja disposta. No entanto, lamentou a falta de contato com as autoridades americanas. "Até agora, não conseguimos conversar com ninguém... Se o Trump quiser negociar, o 'Lulinha, paz e amor' voltou", brincou, embora tenha garantido que não planeja telefonar pessoalmente para o presidente americano.
O presidente brasileiro enfatizou que a missão de abrir novos canais de entendimento está nas mãos do vice-presidente Geraldo Alckmin e dos ministros da Fazenda, Fernando Haddad, e das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Em outro trecho da entrevista, Lula comentou sobre as recentes operações policiais contra o crime organizado no setor de combustíveis, que investigam um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao tráfico de drogas. Ele descreveu a operação como "a mais importante da história" para atingir criminosos de alto escalão.
"O crime organizado hoje é uma entidade muito sofisticada... está presente na política, no futebol, no sistema de justiça; é uma força internacional poderosa, uma verdadeira multinacional", observou.
As investigações revelaram o uso de fundos de investimento e fintechs para ocultar ativos ilícitos, levando a Justiça Federal a determinar o bloqueio de bens e valores mobiliários no valor de até R$ 1,2 bilhão (US$ 213 milhões).

