
Stephen Kaplin organiza adereços de palco no Teatro Chinês Works em Nova York, Estados Unidos, em 19 de junho de 2025. (Foto por Li Xirui/Xinhua)
Por Li Xirui
Nova York, 7 ago (Xinhua) -- Um loft ensolarado em Long Island City abriga um mundo em miniatura costurado pelo tempo. Marionetes esculpidas à mão, figurinos de seda e pincéis de caligrafia convivem com projetores, laptops e luzes de palco.
Este é o lar criativo do Teatro Chinês Works (CTW, na sigla em inglês), onde tradições centenárias do teatro chinês de marionetes são reinventadas por meio do teatro experimental para se conectar com o público americano contemporâneo.
Fundado pela artista de ópera chinesa Kuang-Yu Fong e pelo marionetista de vanguarda americano Stephen Kaplin, o CTW se tornou um raro laboratório cultural. Nele, formas de arte enraizadas na rica herança cultural imaterial da China não apenas sobrevivem, como também evoluem, falando com novas vozes, em novos palcos, para novas gerações.
VOZES EMERGENTES
"O teatro de marionetes é muito lúdico", disse Charlie Santos, 29 anos, um novato no teatro chinês de marionetes que cresceu com o teatro comunitário ocidental. "É como voltar a ser criança, brincando com brinquedos, animando-os na imaginação e criando pequenos mundos".
O mundo que Santos constrói agora está imerso na tradição chinesa. Sua jornada no teatro de marionetes começou on-line, quando uma olhada na oficina do CTW despertou sua curiosidade. Ele começou como voluntário nos espetáculos, mergulhando gradualmente nos movimentos estilizados, ritmos e disciplina da performance chinesa. A transição dos cenários pintados com spray para os bonecos de sombra foi enorme, mas, para Santos, essa lacuna virou uma ponte.
"No teatro em que cresci, era como se tudo fosse dinâmico e novo. Qualquer um poderia entrar e fazer algo", disse ele. "No CTW, há muito respeito pela tradição, o que é gratificante. Essas formas de arte têm uma longa história, e honrar esse legado é essencial".
"Existe uma cultura linda sobre a qual tenho aprendido muito e me aprofundado. Por outro lado, não faço parte dela", disse ele. "Nesse sentido, tem sido um ótimo lugar para mim, pois me tirou da zona de conforto".
Santos disse que gosta de ser um "estranho".
"As tradições precisam de vozes que não sejam limitadas por regulamentos ou convenções. Acho que há valor em contribuir com uma perspectiva diferente, desde que seja baseada no respeito", disse ele.
Enquanto Santos representa uma nova energia e uma ruptura com a tradição, Chen Xiuyuan, estudante de pós-graduação da Escola de Artes Tisch da Universidade de Nova York, representa uma geração jovem disposta a promover sua herança cultural.
"Há cada vez menos jovens que se dedicam a essa forma de arte tradicional com paixão, como pessoas que a apresentam, promovem e preservam com as próprias mãos há décadas", disse ele.
Chen não subiu diretamente ao palco, ele entrou no passado, digitalizando imagens de arquivo com décadas de existência e reunindo fragmentos da história.
"Desde 1995, eles gravaram uma coleção extraordinária de material em fita, rica em conteúdo e variada em estilo", lembrou ele. "Os formatos eram ultrapassados, o equipamento não era confiável. Mas as histórias que guardavam eram inestimáveis".
PALCOS REIMAGINADOS
"Esta é a nova energia de que a arte chinesa precisa", disse Fong, diretora-executiva e cofundadora do CTW. "Precisamos de alguém que não se limite à tradição. O que estamos fazendo é uma mistura, mantemos o tradicional, mas combinado com estilos contemporâneos".
Essa experimentação também moldou a própria jornada de Fong na organização.
"Com o tempo, comecei a entender as muitas camadas da ‘interpretação de papéis’ no trabalho artístico", disse ela. "Sou produtora, diretora de palco e educadora. Passei de artista a organizadora".
Para Fong, que se formou em ópera clássica chinesa, promover o teatro chinês nos Estados Unidos não se trata de uma apresentação única, mas de cultivar uma presença cultural duradoura por meio de uma evolução cuidadosa. Sua equipe tem buscado constantemente vozes emergentes como Santos e Chen, que navegam pelas sensibilidades chinesa e ocidental.
Essa evolução também significa experimentação. O teatro de sombras tradicional é reinventado por meio de projeções e silhuetas ao vivo. Os roteiros se baseiam em mitos chineses, enquanto os diálogos geralmente se desenrolam em inglês. Em "A Lenda da Serpente Branca", o folclore antigo se funde com a multimídia moderna para criar uma linguagem visual que transcende culturas.
"É essa direção que estamos explorando: usar vocabulários técnicos ocidentais para reinterpretar a tradição chinesa e criar um novo tipo de performance contemporânea", disse ela.
"Queremos enfatizar o que chamo de ‘lúdico sério’ em nosso trabalho teatral. Em inglês, ‘play’ significa tanto performance quanto jogo", acrescentou ela. "Levamos nosso trabalho a sério, mas também acreditamos que a arte deve ser divertida, orgânica e viva".
CONECTANDO GERAÇÕES
Para Kaplin, cofundador do CTW, essa mistura do antigo e do novo não é apenas artística, mas também pessoal. Formado em teatro experimental americano, ele já considerou as artes tradicionais chinesas como "de outro planeta". Mas, depois de conhecer Fong, essa distância se tornou a base para a colaboração, e também para o casamento.
"Eles são muito diferentes", disse ele. "Mas você encontra maneiras de uni-los".
Kaplin se apaixonou pelo teatro de bonecos devido à sua fusão de escrita, design e performance, considerando-o um meio artístico sério, capaz de desconstruir o teatro tradicional. Sua missão de reformular o teatro de bonecos ganhou impulso quando ele e Fong começaram a colaborar.
Kaplin disse que sua colaboração com Fong é divertida, já que os artistas do teatro tradicional chinês geralmente seguem movimentos rigorosos para fazer a arte parecer profissional e autêntica, enquanto os artistas ocidentais são mais casuais.
O casal começou a fundir o teatro de bonecos com a cultura chinesa, usando a comédia para contar histórias de imigração, o teatro de sombras para expressar as lutas contemporâneas e um teatro de brinquedo artesanal para explorar a vida cotidiana.
"Começamos a produzir Monkey (Macaco, personagem do romance chinês "Viagem ao Oeste") em Nova York", disse ele.
Não foi uma mera adaptação, mas uma reinterpretação cultural. Em vez de simplesmente replicar a arte chinesa, o objetivo era reinterpretá-la de maneiras que ressoassem com o público ocidental.
Enquanto a arte tradicional chinesa valoriza a herança, o teatro de vanguarda americano enfatiza a experimentação. Kaplin disse que ainda é importante garantir a autenticidade e manter elementos da arte original.
Para Kaplin e Fong, preservar a tradição não significa resistir à mudança, mas guiá-la e ressuscitar antigas formas de arte por meio da experimentação, colaboração e imaginação intercultural.
"Não abandonem o passado. Sim, temos uma tecnologia incrível, mas ela tem seus limites... Pensem na cultura chinesa, há quanto tempo ela existe. Devemos fazer bom uso dela", disse ele.

Kuang-Yu Fong (esquerda) e Stephen Kaplin posam para foto no Chinese Theatre Works, em Nova York, Estados Unidos, em 19 de junho de 2025. (Foto Li Xirui/Xinhua)



