Importação em massa de alimentos confere à China posição importante global, afirmam especialistas brasileiros

2020-10-17 20:18:01丨portuguese.xinhuanet.com

Rio de Janeiro, 16 out (Xinhua) -- A China se tornou no maior importador mundial de alimentos devido à necessidade de garantir a segurança alimentar de sua população, algo que dá a ela uma posição cada vez mais importante no cenário internacional, segundo especialistas brasileiros presentes ao Terceiro Encontro da Rede Brasileira de Estudos da China.

Para o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Thiago Lima, "no século XX, a China surge como potência emergente e nesse processo passa a expandir esses recursos para o sistema internacional: começa a exportar parte dos recursos que absorveu, agora transformados, como investimentos, tecnologia e serviço, sem esquecer que a China também é uma grande exportadora mundial de alimentos".

Para o professor, "os principais atores do sistema internacional têm grande poder de absorção e necessitam exportar os recursos transformados posteriormente. Para que isso funcione tranquilamente, é necessário criar uma ordem internacional para que isso seja quase automático e não unilateral".

"O que vemos neste século é que a nova ordem internacional está sendo questionada e isto nos leva a disputas comerciais agrícolas, de hegemonia. A liberalização do comércio agrícola nunca foi uma prioridade do sistema, nem da Organização Mundial do Comércio (OMC), porque os países, como Estados Unidos e Europa, necessitavam contar com protecionismo em termos de subsídios para sustentar seu modelo de agricultura", comentou.

Não obstante, "depois dos anos 90, quando se consolidaram os novos exportadores agrícolas, como Brasil, México ou Índia, ganha terreno essa ideia de que o comércio internacional de commodities necessita ser liberalizado porque os produtores necessitam exportar mais".

Segundo Lima, a China ascende como poder econômico, já é a segunda economia mundial em PIB e a primeira em poder de compra e, conforme sua população aumenta, quer diversificar sua alimentação e aderir aos padrões alimentícios das grandes empresas.

Na China existe uma crescente classe média com novos hábitos alimentares a ser atendidos, disse professor Lima.

Outro participante, Alexandre Leite, professor de Relações Internacionais na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), valorizou as políticas agrícolas adotadas pelo governo chinês durante a pandemia do novo coronavírus (COVID-19).

"Em plena pandemia, a China resolveu aplicar políticas diretas de reforma e modernização, estabelecendo metas no setor agrícola, pensando em um cenário global, porque ainda é um país dependente da importação de alimentos", comentou.

"Enquanto todo o mundo estava impactado pela COVID-19, com os pequenos e médios produtores muito afetados, a maioria dos países que adotaram políticas diretas para esses produtores tiveram um resultado muito melhor, inclusive na manutenção da renda."

Segundo ele, a China é um exemplo positivo com políticas de preservação de preços mínimos.

Ressaltou também que "apesar de seu desenvolvimento, a China ainda é um país de produção agrícola. Por isso, as políticas de mecanização, modernização e automatização agrícolas são tão importantes, e fortalecem as empresas que participam no cenário internacional.

Outro dos participantes, o professor de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp) e especialista em segurança alimentar, Walter Belik, comentou que "a arrancada da China na produção e comércio de alimentos tem motivações estratégicas e culturais. A China tem que controlar seus mercados por uma questão do ressentimento em relação ao tema da fome que já viveu".

Para Belik, "as mudanças nos hábitos de consumo chinês estão provocando mudanças nos fluxos de comércio internacional e no perfil da produção local (como a comida saudável ou a própria logística)"

O professor também se referiu à "orientação do governo em prol da sustentabilidade, que já está influenciando a produção dos países exportadores e que, apesar do pragmatismo chinês, deve promover mudanças de fluxos e produtos comercializados".

O Terceiro Encontro da Rede Brasileira de Estudos da China se realiza até 16 de outubro. Os participantes analisam temas como o desafio da mudança climática na China e no Brasil, as relações sino-brasileiras pós pandemia, investimentos externos chineses no Brasil e na América Latina, transformações em estruturas de crescimento econômico da China e seus impactos para os países BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), entre outros.

A Rede Brasileira de Estudos da China se inaugurou em novembro de 2017 com o objetivo de aprofundar os estudos sobre a China no Brasil. Atualmente, a rede tem cerca de 300 membros, entre acadêmicos, jornalistas, diplomatas, empresários e outros profissionais.

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