Menor comunidade indígena do Brasil usa barreiras sanitárias para se proteger da COVID-19
Grajaú, Maranhão, 5 out (Xinhua) -- Para se proteger da chegada da pandemia do novo coronavírus, a aldeia indígena Morro Branco, a menor do Brasil, instalou barreiras sanitárias que até o momento tiveram êxito evitando que o vírus causasse estragos entre seus membros, todos eles da etnia Guajajara.
Situada no interior do estado do Maranhão (nordeste), dentro do município de Grajaú, Morro Branco é uma das aldeias indígenas que receberam uma missão especial das Forças Armadas brasileiras para prestar cuidados médicos à população e ajudá-la na prevenção contra a COVID-19.
Em uma entrevista à Xinhua, o cacique de Morro Branco, Sebastião Bento Guajajara, afirmou que "esta ação das Forças Armadas em nossa comunidade é muito importante. Esse atendimento de prevenção contra a COVID-19, o cuidado com os animais, que também têm suas doenças... tudo isso ajuda a prevenir, porque a COVID-19 é uma doença muito séria, sabemos que não é brincadeira".
O cacique admitiu que "houve muito pânico em nossa comunidade quando tivemos conhecimento da chegada do vírus no Brasil e sua rápida expansão. Por causa disso, pela primeira vez, criamos barreiras sanitárias para prevenir, com a iniciativa dos outros caciques e do pessoal da saúde. Até agora, tivemos apenas dois casos em nossa comunidade, e podemos dizer que a barreira sanitária teve um efeito positivo contra a COVID-19".
A proximidade com o núcleo urbano de Grajaú (a cerca de 500 metros) motivou a instalação da barreira sanitária, um controle das pessoas que entram e saem da comunidade, todas obrigadas a passar álcool gel nas mãos e usar máscaras.
Segundo explicou à Xinhua Ythay Guajajara, uma das mulheres da aldeia, "é um cenário muito triste o que vivemos atualmente e, por isso, todos os indígenas agradecemos muito por essas operações de ajuda. Necessitamos da sensibilidade de todos, de mais atenção para com a saúde indígena, de um combate específico. O único que temos até agora são ações de prevenção contra o vírus", lamentou.
Para ela, o momento atual da pandemia faz com que os membros da etnia Guajajara, a maior do Brasil e que conta com cerca de 40.000 membros no estado do Maranhão, vivam "muito preocupados".
"É uma situação muito diferente de outras doenças que já chegaram aqui e que temos como tratar. Tudo é muito confuso para nós, não sabemos o que está acontecendo. Houve um impacto muito ruim na comunidade porque não sabemos como ajudar nossos parentes", ressaltou.
Ythay comentou que "quando se registrou o primeiro caso da COVID-19 em Grajaú, todos tivemos muito medo na aldeia e os caciques optaram então por instalar uma barreira sanitária para fazer uma seleção das pessoas que entravam ou saíam da aldeia. Isso ajudou muito, porque apesar de estarmos muito perto da cidade, a 500 metros, não tivemos tantos casos graves da COVID-19".
Para José Aldrinho Guajajara, o estilo de vida dos indígenas dificulta algumas das medidas de prevenção contra a COVID-19, como o distanciamento social.
"Somos a menor comunidade indígena do Brasil, mas a realidade que vivemos é a mesma do resto das aldeias, porque a vida do povo indígena é muito coletiva, compartilhamos muitas coisas juntos, vivemos juntos. Mesmo que fôssemos a maior terra indígena, os costumes seriam os mesmos da menor: ir ao rio tomar banho juntos, as reuniões de todos juntos... os indígenas sempre estamos juntos, o que torna impossível manter distanciamento", afirmou.
Aldrinho lamentou "a falta de apoio dos governos no combate à COVID-19, seja no nível municipal, regional ou federal. A única coisa que chegou para nós foram cestas básicas, mas os kits que recebemos foram doações e não era algo que pudéssemos dizer que eram produtos essenciais, não era algo que nos protegia do vírus".
De sexta-feira até esta segunda-feira, as Forças Armadas brasileiras realizaram a terceira "Operação Maranhão", na qual foram entregues mais de duas toneladas de medicamentos e equipamentos de proteção individual para os índios Guajajara da região.
A operação, liderada pelas Forças Armadas e pelo Ministério da Saúde, atendeu a 12.216 indígenas. Além das ações contra a pandemia, também foram realizados atendimentos clínicos, pediátricos, ginecológicos, odontológicos e cuidados com animais, através de veterinários.
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