Dia de finados na China - Festival Qingming e suas origens
Por Ignacio L. W. Reboledo

No continente chinês, centenas de milhares de pessoas param para relembrar seus ancestrais e entes falecidos no feriado Qingming, que acontece anualmente entre 4 e 6 de abril. As aulas são suspensas. Trabalhadores ganham um dia de folga. Pessoas vão às ruas ou templos e queimam papel de joss, o dinheiro dos mortos. Grávidas cobrem seus ventres com tecido vermelho. Os túmulos são limpos. Filmes de terror com temas fantasmagóricos são lançados. Superstições e crenças ecoam a todo vapor nesse período do ano dando forma ao feriado Qingming, que também é chamado dia de finados, ou dia de limpar túmulos, ou também chamado de festival Taqing, traduzido como piquenique.
Por mais que seja um feriado anual e considerado uma herança cultural, muitas das antigas tradições do Qingming já foram esquecidas. Com mais de 2500 anos de história, o feriado Qingming de hoje é puramente visto como uma data de veneração aos finados, possuindo uma atmosfera fúnebre e um tanto macabra. Evidência do entorno lúgubre que se cria é o fato de não se usar a palavra “celebrar” para esse feriado.
Em muitos países ocidentais, o dia de finados é celebrado em novembro e tem origem católica. Já na China, o feriado tem raízes milenares e possui uma história longa e complexa, que se iniciou na antiguidade chinesa com práticas nas tradições da sociedade agrícola.
Inicialmente, Qingming, um dia do ano entre 4 e 6 de abril, apenas se referia ao quinto termo solar do calendário chinês, o qual é dividido em 24 quatro termos solares.
Sempre considerada uma data de extrema importância na China antiga, o Qingming que se encontra no meio da primavera, era o período no qual se dizia adeus ao frio e se acolhia de braços abertos a vinda das temperaturas elevadas, o aumento da vegetação e a retomada da agricultura, criando costumes como o de fazer bolinhos Qingtuan a vapor, empinar pipa e organizar piqueniques.

Um dia antes do Qingming também se celebrava o Festival Hanshi, traduzido como o festival de Comida Fria, no qual não se permitia acender nenhum tipo fogo, fazendo com que a população consumisse alimentos crus. Este festival foi o que mais influenciou o feriado Qingming e suas tradições.
Aos poucos, de um festival que celebrava a primavera, o Qingming, junto ao Hanshi, transformou-se no dia de finados da China e foi consolidado como prática nacional a partir da dinastia Tang no final do primeiro milênio depois de Cristo.
O festival Hanshi tem origens na lenda de Jie Zitui. Diz-se que devido à crise presente na corte do país Jin, em 630 a.C. o futuro herdeiro do trono, Jin Wengong, fugiu para o exilo com seus ministros por mais de 19 anos. Num momento de fome extrema, o ministro Jie Zitui decidiu sacrificar sua própria carne como alimento a Jin Wengong que já estava definhando.
Anos mais tarde, Jin Wengong voltou ao seu país e tomou o trono que era seu por direito. No entanto, Jie Zitui continou no exilo, negando qualquer retribuição por seus atos de lealdade ao rei.
Pressionado por uma demanda social, Jin Wengong lembraou-se que Jie Zitui o havia ajudado maneira excepcional e que, de fato, merecia recompensa por sua fidelidade e sacrifício.
Como Jie Zitui se recusava a receber qualquer forma de mérito e viva recluso em uma montanha, Jin Wengon ordenou que esta fosse incendiada, o que forçaria Jie Zitui a deixar a reclusão. Este, porém, não se rendeu e foi encontrado incinerado junto a sua mãe.
Jin Wengong sentiu um remorso tão grande que decidiu mudar o nome do local para Montanha Jie, ali fundando um templo em sua homenagem e dedicando um dia do ano à sua pessoa.
Nesse dia do ano foi proibida a queima de qualquer material, fazendo com que as pessoas consumissem somente pratos frios e com que se recordassem de Jie Zitui e, assim, deu-se origem às primeiras atividades do festival Hanshi.
Porém, há registros de que a China na antiguidade já celebrava o Festival Hanshi, traduzido como festival de Comida Fria, que ocorre um dia antes do Qingming.
Diz-se que antigamente se usava diferente fonte de fogo, ou seja, outro tipo de madeira, para diferentes rituais de acordo com a época do ano.
Durante a troca de um tipo de madeira por outro, para realizar os rituais pirotécnicos, era proibido acender qualquer tipo de fogo. Com o culto a Jie Zitui, tal prática se tornou ainda mais popular passando a ser um festival anual.
Após a consolidação da China como um estado único em 221a.C., o culto a Jie Zitui no festival Hanshi se transformou em algo continental, especialmente durante a dinastia Jin no século III d.C, dinastia que possuía o mesmo nome do antigo país de Jie Zitui, e que para ascender suas características culturais, promoveu a celebração do festival Hanshi quase que obrigatoriamente.
Devido à consolidação do confucionismo como instituição política e social no início do primeiro milênio depois de Cristo, a sociedade chinesa começou a desenvolver uma veneração à família em dimensões tremendas. Cultos e cerimônias aos entes falecidos se tornava algo de extrema importância.
Chegando na dinastia Tang, meados do século VIII, iniciou-se uma cultura de veneração aos mortos de certo modo exagerado. Famílias ricas realizavam cultos aos seus antepassados de uma maneira exorbitante, o que complicava a ordem no país.
Dado que cada família realizava as cerimônias individualmente e em diferentes épocas do ano, o imperador Tang Xuanzong decidiu dedicar um dia do ano ao culto de seus ancestrais. Como o festival Hanshi, que aos poucos começou a adotar práticas de culto não apenas a Jie Zitui, mas também aos finados em geral, o Qingming que vinha logo em seguida, foi o dia escolhido para conceder aos ministros um feriado anual para realizar cultos aos seus antepassados.
Já que são dias adjacentes, os costumes do festival Hanshi migraram para o dia Qingming gradualmente. Na dinastia Song, meados do século X, o Qingming se tornou um festival para todas as pessoas do país, um feriado que até hoje é um dos mais importantes do calendário chinês.
Por mais que o Festival Qingming tenha raízes na antiga e complexa sociedade agrícola chinesa, seguindo tradições de culto à primavera e ao heroísmo de Jie Zitui, hoje é inteiramente visto como um feriado de veneração aos mortos.
Preenchido de folclore e crenças populares, ainda é um feriado de extrema importância na sociedade chinesa moderna e permite que a população se recorde de seus ancestrais, faça preces por aqueles esquecidos e preze pelas raízes de suas famílias.












