A “globalização” nas Duas Sessões

2017-03-16 14:18:23丨portuguese.xinhuanet.com

Por Keila Cândido 

Pela primeira vez a palavra “globalização” foi um dos temas-chave nas reuniões políticas de planejamento mais importantes da China, conhecidas como “Duas Sessões”: a 5ªsessão da 12ª Assembleia Popular Nacional (APN) e a 5ªsessão do 12º Comitê Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), que acontecem todos os anos no início de março. Isso mostra que, com membros da sociedade civil e legisladores, a cúpula chinesa está não apenas preocupada com os problemas internos urgentes que precisam ser enfrentados, mas também está atenta às questões fundamentais do mundo.

Uma prévia do que seria tratado nas duas sessões, publicada pela Xinhua,  norteou como o governo trataria o tema. "Em um momento em que certas potências ocidentais recuam para o protecionismo e isolamento, a China promove a globalização da economia com um espírito de abertura e abrangência. A China continuará abrindo-se e promovendo a globalização inabalavelmente com a sabedoria chinesa."

O tom sobre a questão, no entanto, já havia sido dado no início do ano no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suiça, pelo presidente Xi Jinping que, em seu discurso pronunciado na cerimônia de abertura do evento, falou sobre a importância da globalização e dos perigos do protecionismo. "Culpar a globalização econômica por causa dos problemas do mundo não corresponde à realidade e não é util para resolver os problemas", afirmou. A fala foi um recado, apesar de não citar nome, ao presidente eleito dos EUA Donald Trump, que desde sua candidatura criticou a globalização e a culpou pelos males enfrentados pelo seu país.

O novo cenário internacional, que vem sendo redesenhado ainda com linhas não claras por Trump, gera preocupações até mesmo nos aliados do governo americano. Eleito com um discurso protecionista, Trump tem tomado medidas para fechar mais os EUA e focá-lo em questões internas, revendo tratados pré-estabelecidos, investimentos e futuras parcerias. Ao mesmo tempo em que os EUA proliferam mensagens de isolamento, a China olha para essa postura como uma oportunidade de dialogar com aqueles países que de certa maneira serão afetados pela política nacionalista americana. “A porta da China não se fechará”, disse Xi nas Duas Sessões.

A América Latina e o Brasil, por exemplo, ainda sem saber exatamente quais serão os impactos da gestão de Trump, podem se beneficiar de uma maior abertura econômica da segunda economia do mundo, atraindo mais investimentos e revendo acordos de cooperação. As parcerias passam a ser, portanto, não apenas econômicas, mas também políticas. Assim, ao adotar uma postura de acolhimento a China aumenta sua presença e influência na região.

A nova China entende a globalização como um processo de benefício mútuo e sabe que seu crescimento a partir de agora só acontecerá se for inclusivo, e não exclusivo. Um relatório de trabalho do governo apresentado pelo primeiro-ministro Li Keqiang em 5 de março reafirmou como a governança chinesa olha para a globalização nesses novos tempos. “O país se envolverá mais na governança global e conduzirá a globalização econômica para que ela seja mais inclusiva, mutuamente benéfica e equitativa”, afirmou. Na coletiva de imprensa após o encerramento da sessão anual, o premiê disse que “a China apoiará consistentemente a globalização e o livre comércio.”

A China tem reformulado suas políticas comerciais para facilitar o investimento no país por empresas e indivíduos do exterior e reiterado o discurso de abertura. O país fez esforços para manter seu crescimento econômico, tendo fixado sua meta de PIB para 2017 em cerca de 6,5%, e se integrando com o resto do mundo através de acordos bi e multilaterais. A exemplo estão a iniciativa proposta por Xi Jinping em 2013 “Cinturão e Rota”, que receberá em maio um fórum internacional de líderes, e o fortalecimento do BRICS (Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul), que terá um encontro em setembro na cidade de Xiamen com tema "BRICS: Parceira Mais Forte para Um Futuro Mais Brilhante."

Ao colocar a “globalização” como um dos temas-chave para discussão na reunião política mais importante do país, a China se mostra como um motor de influência global mais disposto a seguir um modelo de relações internacionais baseado na cooperação. A globalização, porém, não envolve apenas o aspecto economico, mas também questões fundamentais na esfera política, social e cultural -  com desdobramentos internos e externos. Neste sentido a China tem sido cautelosa pois, de acordo com o governo chinês, o país visa tomar uma atitude de “ator responsável” no palco global. Essa é a China que olha para a frente - e há ainda um longo caminho a seguir.

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